Análise Banese
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Contexto operacional
O Banese (Banco do Estado de
Sergipe S.A.) é um banco múltiplo de capital misto, controlado pelo Governo do
Estado de Sergipe, com um histórico de atuação focado no desenvolvimento
econômico e social regional. Suas principais linhas de negócio incluem
operações de crédito (comercial, rural, imobiliário), que são o carro-chefe na
geração de receita através de juros. O banco também obtém receita com a
prestação de serviços e tarifas bancárias, incluindo administração de contas,
convênios e cobranças.
O segmento de meios de pagamento,
operado por sua controlada Mulvi (anteriormente SEAC com o Banese Card), é
estratégico, gerando receita com o volume transacionado em cartões e soluções
de adquirência. A Banese Corretora de Seguros contribui com comissões sobre a
venda de seguros, capitalização e previdência. O banco também realiza captações
diversificadas (depósitos à vista, poupança, a prazo) para financiar suas
operações e obtém resultados com sua carteira de títulos e valores mobiliários.
Recentemente, expandiu sua atuação para o setor de loterias, através da LOTESE.
Sua função como banco oficial do estado de Sergipe também é relevante,
administrando recursos e folhas de pagamento governamentais.
Análise de sensibilidade do retorno
Caso Base: O Banese atingir o limite superior de seu retorno histórico (entre 13-16%) com 16% de ROE no longo prazo. (PVP 0.7, TIR 12.7%)
Range Caso Base: Limite superior da faixa, incluindo
iniciativas bem-sucedidas em Loterias e a potencial venda do balcão de seguros.
(PVP 0.7, TIR 12.7% a 17.1%)
Cenário Otimista: Iniciativas muito bem-sucedidas e
ganho inicial de R$150 MM com a venda do balcão de seguros. (PVP 0.7, TIR acima
de 17.1%)
Cenário Pessimista: Nenhuma iniciativa implementada,
piora na inadimplência e no retorno histórico. (PVP 0.7, TIR 6.1%)
O que me chamou atenção no Banese?
O banco apresentava-se
extremamente barato à época da análise original, negociado a 0,60x PVP e com um
retorno sobre patrimônio líquido (ROE) muito atrativo de 20,3% em 2024. Uma
comparação rápida com outros bancos evidencia o quão subavaliado o Banese parece
estar. Embora os modelos de negócios e perspectivas de crescimento sejam
distintos entre os bancos, é possível relativizar esses valuations. Por
exemplo, o Banco Inter possui uma carteira de crédito 10 vezes maior que o
Banese, mas um valuation 30 vezes maior. Além disso, o Inter tem um ROE de
11,7% contra 20,3% do Banese (em 2024). Para que as rentabilidades fossem
compatíveis com os valuations, o ROE do Banese teria que cair abaixo de 10% e o
do Inter superar 25%. O mercado parece precificar essa disparidade. Na minha
opinião, é mais provável que o valuation do Inter esteja correto e o do Banese,
muito baixo.
Por Que Tão Barato?
Acredito que três fatores principais levam o banco a ser
negociado nesses preços:
- Risco
Político/Má Gestão: O fato de ser um banco estatal reduz sua
atratividade devido ao risco de ser utilizado como ferramenta política e
de má gestão. Todos os bancos estatais na tabela comparativa do documento
original negociam a múltiplos de PVP muito abaixo de seus pares privados.
- Volatilidade da Rentabilidade e ROE Recente: O ROE do banco tem sido bastante volátil nos últimos 15 anos, ficando abaixo da média histórica desde 2020, com exceção de 2024.
- Tamanho/Liquidez:
O Banese possui um patrimônio líquido de apenas R$800 MM, com apenas 8,3%
do capital em free float e uma liquidez média diária de somente R$53 mil.
Isso praticamente inviabiliza a participação de grandes investidores,
resultando em baixa cobertura por analistas e participação reduzida de
fundos de investimento.
O que impactou o ROE em 2022 e
2023?
- 2023
(ROE 7,1%): Impacto não recorrente do aumento da provisão para COFINS,
contribuindo negativamente com R$52,3 milhões. Sem esse efeito, o ROE
teria sido aproximadamente 15%.
- 2022
(ROE 12,7%): Impactos do aumento do custo de captação devido à alta da
Selic e provisões.
Portanto, o ROE recorrente do banco antes de 2024, apesar de
alguma oscilação pelos ciclos econômicos, situava-se entre 13% e 16%.
O que influenciou
positivamente o resultado de 2024 (ROE 20,6%)?
Os principais eventos ou itens não recorrentes que
impactaram positivamente o resultado em 2024 foram:
- Créditos
Tributários (Lei Complementar nº 160/2017): Impacto de R$40 milhões.
Esse reconhecimento foi tão significativo que a linha de "Imposto de
Renda e Contribuição Social sobre o Lucro" na Demonstração do
Resultado ficou negativa em R$15,3 milhões no ano, indicando um crédito
líquido.
- Recuperação
de Precatórios / Receitas Eventuais: Impacto de +R$16 milhões.
Provavelmente registrados em "Outras Receitas Operacionais", na
subconta "Receitas Eventuais".
Excluindo esses dois impactos relevantes, o ROE do banco
teria sido mais próximo de 13%.
Indicativos de que o ROE
pode ficar acima do histórico
Partindo de um ROE recorrente próximo a 15% (o que já seria
razoável com um PVP abaixo de 0,7x ), alguns pontos e iniciativas recentes
indicam que a rentabilidade pode superar o histórico:
1)
JCP Trimestral: O banco anunciou
pagamentos trimestrais de Juros sobre Capital Próprio (antes semestrais), já
implementados em 2025, sinalizando maior previsibilidade de bons resultados.
2)
Iniciativas Estratégicas: Com o objetivo
de diversificar receitas, otimizar o uso do capital e expandir negócios
(crédito, seguros, loterias), o banco anunciou uma série de iniciativas ainda
não refletidas nos resultados:
a.
Venda do Balcão de Seguros (Bancassurance):
Anunciada em dezembro, esta nova abordagem foca na distribuição de produtos de
seguros selecionados diretamente na rede bancária, em parceria exclusiva com
uma seguradora. Estima-se um impacto potencial de:
i.
Pagamento Inicial (Luvas): Entre R$150
milhões e R$250 milhões, recebidos ao longo de 3 anos.
ii.
Receita Recorrente: Impacto adicional no
lucro líquido entre R$30 milhões e R$40 milhões por ano a partir de 2026
(comissões de seguros prestamista e acidentes pessoais).
b.
Loterias (LOTESE): Aprovação
governamental em abril de 2024 para operar o serviço de loteria em Sergipe, com
parceria estratégica (49,9% da operação). O impacto não deve ser material no
curto prazo, mas representa uma diversificação de receitas no médio prazo.
Estima-se uma adição entre R$15 milhões e R$25 milhões anuais ao lucro líquido
a partir de 2026.
c.
Leaseback (Cancelada por enquanto): Proposta
de venda de imóveis com aluguel simultâneo de longo prazo, que poderia gerar
entre R$80 milhões e R$100 milhões em caixa.
3)
Comunicação com Investidores: Desde o
4T24, o banco realiza teleconferências de resultados e possui uma plataforma
completa para investidores, com informações e atualizações sobre as
iniciativas. A qualidade da informação é até superior à de bancos maiores, como o Banco da
Amazônia.
4)
Aumento da Captação: No final de 2024, o
banco teve uma captação expressiva de R$1,6 bilhão (relevante para uma carteira
total de R$10 bilhões) devido à concessão parcial do serviço de saneamento de
Sergipe. Esse montante, ainda em investimentos líquidos, deve ser transferido
para operações de crédito (mais rentáveis), impactando positivamente o ROE em
2025. Estimativa de impacto positivo de +200bps no ROE, levando o recorrente
para cerca de 18% se o valor permanecesse com o Banese.
Vantagens competitivas
Indicam que o ROE atual pode ser mantido e até ampliado:
- Posição
de Liderança em Sergipe: Apesar do tamanho reduzido em comparação
nacional, o Banese é líder em Sergipe com 35,8% de market share. É o único
banco presente em todos os 75 municípios do estado com agências ou
correspondentes. Ser líder em um mercado específico é preferível a ser
maior com pouco market share (ex. Nubank e Inter). O estado também tem
baixa participação de bancos privados.
Custo de captação
No 4T24, o custo médio de
captação do Banese ficou em 83,5% do CDI, que fica bem abaixo de bancos médios
(que captam acima de 100% do CDI), reflexo de uma estrutura diversificada de
funding.
·
CDBs/RDBs (40%), principal fonte de
captação, provavelmente apresentam custos próximos ou até ligeiramente acima do
CDI, refletindo o esforço do banco para atrair investidores pessoa física e
jurídica. No 4T24 o banco captou mais R$ 2B (20% da carteira) adicionais de
outorgas municipais e deve suportar um crescimento da carteira de crédito para
2025.
- Depósitos
judiciais e governamentais (19 %) devem ter custos mais baixos,
variando entre 65% e 80% do CDI.
- Poupança
e depósitos à vista (37%) seguem sendo as fontes mais baratas, com
custos significativamente abaixo do CDI.
- Letras
financeiras subordinadas e repasses (3%) devem situar-se na
faixa de 85% a 95% do CDI, conforme o prazo e a natureza dos títulos.
Acesso a Clientes: Sendo o banco cujo controlador
majoritário é o Estado de Sergipe, o Banese geralmente administra as contas do
governo estadual, processa a folha de pagamento dos servidores públicos e pode
centralizar a arrecadação de tributos estaduais. Isso garante um fluxo de caixa
significativo e uma base de clientes grande e estável.
Riscos
Poderiam reduzir o ROE, mantendo-o abaixo de 12%
(considerando o cenário pessimista):
Ineficiência: O
banco tem mantido historicamente índices de eficiência piores que o mercado, atingindo
55% em 2024 (quanto maior pior indicando que o banco tem 55% de despesas
operacionais versus receita). Os bancos mais eficientes e com mais escala
possuem índices de eficiência abaixo de 40% e pode ser um risco no médio prazo
na competição com novos entrantes.
Inadimplência: O
Banese manteve níveis de inadimplência (>90 dias) relativamente baixos e
controlados durante a maior parte do período (2015-2022), consistentemente
abaixo de 1,5%. Houve melhora significativa entre 2015 e 2017/2018. O índice
permaneceu estável em torno de 1,0-1,2% entre 2018 e 2021. No entanto,
observa-se um aumento significativo em 2023 (2,87%) e 2024 (3,38%). Esse
aumento recente, embora ainda possa ser considerado gerenciável, indica uma
deterioração na qualidade da carteira, alinhada com um cenário macroeconômico
mais desafiador impactado por operações no segmento PJ e Rural.
Risco Político e de Governança refletidos na inadimplência: Por ser uma empresa de economia mista controlada pelo Governo do Estado de Sergipe, o Banese está sujeito a influências políticas. Mudanças na administração estadual podem levar a alterações na diretoria e na estratégia do banco. Pode haver pressão para que o banco adote políticas que não necessariamente maximizem o lucro para os acionistas, como concessão de crédito com critérios menos rigorosos para fins sociais ou políticos, ou nomeações para cargos de gestão baseadas em critérios políticos. A tomada de decisão pode nem sempre alinhar-se perfeitamente aos interesses dos acionistas minoritários.
Análise de agência de rating:
As agências de rating Fitch e Moody's Local Brasil atribuem ratings elevados ao Banese (AA+(bra) e AA-.br, respectivamente), ambos com perspectiva estável. Essa avaliação reflete o forte suporte do controlador, o Estado de Sergipe, e a posição estratégica do banco no mercado local, com relevante participação em crédito e depósitos. A melhora na capitalização é um ponto positivo, enquanto a concentração regional e a volatilidade da rentabilidade são observadas.
Resumo
Com o valuation atual, acredito que o banco já esteja
precificado em um cenário próximo do pessimista com um ROE entre 10-12%. Assim,
todas as iniciativas e oportunidades citadas, que já foram anunciadas e estão
em andamento com pontos concretos como fechamento de parceria para a loteria e
abertura da concorrência para o negócio de seguros, seriam upsides muito
consideráveis. Mesmo com pouco impacto, essas iniciativas já poderiam levar o
ROE para patamares acima de 15%. Assim, para o cenário base, considero 16% de
ROE.





